Microfísica dos poderes e microfísica dos desejos| Por  Félix Guattari

MICROFÍSICA DOS PODERES E MICROPOLÍTICA DOS DESEJOS.

 Félix Guattari.*

Tendo obtido o privilégio de ver retomar por Michel Foucault uma proposição que eu tinha lançado um pouco por provocação, decretando que os conceitos não eram, no fim das contas, senão ferramentas, e as teorias o equivalente de caixas contendo-as – sua potência não podendo exceder os serviços que prestavam em campos delimitados, por ocasião de sequências históricas inevitavelmente limitadas -, vocês não ficarão espantados de me ver hoje vasculhar o aparato conceitual que ele nos legou, para tomar emprestado alguns de seus instrumentos, e quando for o caso, desviar o seu uso ao meu bel-prazer.

Tenho aliás a convicção de que foi sempre assim que ele pretendia que nos servíssemos de sua contribuição.

Não é por uma prática exegética que se pode esperar manter vivo o pensamento de um grande falecido, mas somente por sua retomada e seu relançamento em ato, com os riscos e perigos daqueles que se expõem a isso, para reabrir seu questionamento, e para lhe trazer a carne de suas próprias incertezas.

Cabe a vocês relacionar a banalidade dessa primeira proposição, ao gênero difundido da homenagem póstuma! Num de seus últimos ensaios, tratando da economia das relações de poder, Michel Foucault rogava a seu leitor não se deixar chocar pela banalidade dos fatos que relatava: “Não é porque eles são banais, escrevia ele, que eles não existem. O que é preciso fazer com fatos banais é descobrir – ou tentar descobrir, qual problema específico e talvez original se liga a eles” (M.R, p. 299). Pois bem, eu creio que o que é bastante raro, e que se presta talvez à descoberta, no modo pelo qual o pensamento de Michel Foucault é chamado a sobreviver, é que ele abraça, melhor que nunca, as problemáticas mais urgentes de nossas sociedades a respeito das quais, até uma nova ordem, nada foi avançado de tão elaborado, e sobre as quais todos os modos inabituais dos pós-modernismos e dos pós-politismos já caducaram.

O essencial da démarche de Foucault consistiu em se destacar conjuntamente de um ponto de partida que o levava em direção a métodos de interpretação hermenêutica do discurso social, e de um ponto de chegada que teria podido ser uma leitura estruturalista, fechada sobre si mesmo desse mesmo discurso. É na Arqueologia do Saber que ele devia proceder a essa dupla conjuração. É aí que ele explicitamente se desligou da perspectiva, que foi inicialmente a sua em História da Loucura, proclamando que não era mais questão para ele “de interpretar o discurso para fazer através dele uma história do referente” (A.S., pp. 64-67), e que ele pretendia, doravante, “substituir ao tesouro enigmático das ‘coisas’ diante do discurso, a formação regular dos objetos que se desenham apenas nele”.

Essa recusa de fazer referência ao “fundo das coisas”, essa renúncia às profundidades do sentido, é paralela e simétrica à posição deleuziana de rejeição do “objeto das alturas” e de toda posição transcendental da representação. A horizontalidade, uma certa “transversalidade”, resultante de um novo princípio de contigüidade-descontinuidade, pareceu então dever se impor contra a tradicional estação vertical do pensamento. Destaquemos que é por essa mesma época que ocorreram tumultuosos questionamentos das hierarquias opressivas de poder, tanto quanto a descoberta de novas dimensões vividas da espacialidade: as cambalhotas dos cosmonautas ou um novo tipo de trabalho no solo nos dançarinos, particularmente com o impulso do Buto japonês.

Renunciar à “questão das origens” [1], extrair para análise “um espaço branco, indiferente, sem interioridade nem promessa” (A. S., p. 54), sem cair entretanto no ardil de uma leitura achatada em termos de significante: isso se torna o novo programa de Michel Foucault… (Continua…)

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