Inteligência e intuição | Por Henri Bergson

Inteligência e intuição | Por Henri Bergson

” Instinto é comunhão. Se essa comunhão pudesse entender seu objeto e também refletir sobre si mesma, ela nos daria a chave das operações vitais – assim como a inteligência, desenvolvida e reformada, nos introduz na matéria. Porque, nunca será demais repetir, a inteligência e o instinto estão voltados a dois sentidos opostos: a inteligência, no sentido da matéria inerte; o instinto, no sentido da vida. A inteligência, por intermédio da ciência que é sua obra, acabará por nos revelar paulatinamente o segredo das operações físicas; da vida ela não nos dá. nem aliás pretende dar, senão uma tradução em termos de inércia. Ela gira em volta, tomando, de fora, o maior número possível de ângulos desse objeto que ela atrai para si, em vez de entrar nele. Mas, o próprio interior da vida é que nos conduziria a intuição, quero dizer, o instinto que se tornou desprendido, consciente de si mesmo, capaz se refletir seu objeto e de o ampliar infinitamente.

Um esforço desse gênero não é possível, como o demonstra a existência, no homem, de uma faculdade estética ao lado da percepção normal. Nosso olho percebe traços do ser vivo, mas justapostos uns aos outros e não organizados entre si. A intenção da vida, o movimento simples que ocorre através das linhas, que as liga uma às outras e lhes dá uma significação, escapa-lhe. Essa intenção é que o artista visa captar, colocando-se no interior do objeto por uma espécie de comunhão, abaixando, por um esforço de intuição, a barreira que o espaço interpõe entre ele e o modelo. É verdade que essa intuição estética, como de resto a percepção exterior, só atinge o individual. Mas pode conceber-se uma pesquisa orientada no mesmo sentido que a arte e que assumiria por objeto a vida em geral, assim como a ciência física, acompanhando até o extremo a direção assinalada pela percepção exterior, estende eme leis gerais os fatos individuais. Sem dúvida, essa filosofia jamais obterá de seu objeto um conhecimento comparável ao que a ciência tem do seu. A inteligência continua o núcleo luminoso em torno do qual o instinto, mesmo ampliado e aprimorado como intuição, constitui apenas uma vaga nebulosidade. Mas, na falta de conhecimento propriamente dito, reservado à pura inteligência, a intuição poderá fazer-nos captar o que os dados da inteligência têm no caso de insuficiente e deixar-nos entrever o meio de os completar. Por um lado, de fato, ele utilizará o mecanismo mesmo da inteligência para mostrar como os esquemas intelectuais não encontram mais aqui sua exata aplicação, e, por outro, por seu trabalho próprio, ela nos irá sugerir pelo menos o sentimento vago do que é preciso pôr em lugar dos esquemas intelectuais. Desse modo, ela poderá levar a inteligência a reconhecer que a vida não entra completamente nem nas categorias do múltiplo nem na do uno, que nem a causalidade mecânica nem a finalidade dão do processo vital uma tradução suficiente. Depois, pela comunicação comungante que ela estabelecerá entre nós e o restante dos seres vivos, pela dilatação  que obterá de nossa consciência, ela nos introduzirá no domínio próprio da vida, que é interpenetração recíproca, criação infinitamente continuada. Mas se, com isso, ela ultrapassa a inteligência, da inteligência terá vindo o arranco que a terá feito subir ao ponto em que ela se encontra. Sem a inteligência, ela teria permanecido, sob forma de instinto, cravada ao objeto especial que a interessa na prática, e exteriorizada por ele em movimentos de locomoção.

(…) Por um lado, de fato, se a inteligência afina com a matéria e a intuição com a vida, será preciso espremer uma e outra para extrair delas a quintessência de seu objeto; a metafísica dependerá pois da teoria do conhecimento. Mas, por outro lado, se a consciência está assim cindida em intuição e inteligência, se dá pela necessidade de se aplicar à matéria ao mesmo tempo que acompanhar a corrente da vida. O desdobramento da consciência decorrerá assim da dupla forma do real, e a teoria do conhecimento deveria depender da metafísica. Na verdade, cada uma dessas procuras conduz à outra; elas fazem um círculo, e o círculo só pode ter por centro o estudo empírico da evolução. Somente observando a consciência correr através da matéria, nela se perder e se reencontrar, dividir-se e reconstituir-se, só assim formaremos uma ideia da oposição dos dois termos entre si, como talvez, também, de sua origem comum. Mas, por outro lado, com apoio nessa oposição dos dois elementos e nessa comunidade de origem, destacaremos sem dúvida mas claramente o sentido da própria evolução.”

Texto retirado de: BERGSON, Henri. A evolução criadora. Cartas conferências e outros escritos. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 200 – 202. Coleção “Os Pensadores”


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